BOI MANSO, CORNADA CERTA

A história do projeto JAÍBA e região, a violência do estado e empresários contra o povo do Sertão, a biodiversidade e o Rio São Francisco na caneta de um amigo escritor.


Imagem do Projeto Didalí




BOI MANSO, CORNADA CERTA

José de Janaúba



Oseias não brigava com ninguém, por nada desse mundo. Era a bondade em pessoa. Desde a infância era pacato, tranquilo, até meio abestalhado. Motivos para brigar, ele não encontrava, não tinha. Ainda nos tempos da escola primária, era bonachão, conciliador, de bem com a vida. Alguns moleques tentavam provocá-lo procurando briga, mas Oseias se retirava calado como se nada tivesse acontecido. Os tempos passaram.


Aos quinze anos, começou a jogar futebol entre os adultos no campo de várzea, na roça onde morava. Centro avante franzino e esperto, era o terror dos goleiros. Qualquer descuido por parte dos zagueiros e a bola ia, passava entre as traves. Naquele tempo não havia redes. Conhecedores das habilidades dele, os beques só encontravam uma maneira de pará-lo: com faltas violentas. Mas não adiantou muito, pois ele era craque e acabou por se transformar num excelente cobrador de penalidades.


Quando recebia uma falta violenta perto da área, ele, irônico, ainda brincava com o jogador adversário: “Obrigado, assim fica mais fácil marcar o gol”. E marcava mesmo! Passaram a vigiá-lo cada vez com mais atenção, com infrações sempre mais violentas, mas ele nunca dava o troco, nunca revidava. Sofria calado, as dores causadas pelas jogadas desleais.


Aconteceu muitas vezes de os torcedores e sapos o chamarem de covarde por não reagir às agressões, mas ele não se importava. Dizia que o jogo era apenas diversão e que não gostava de brigar, não valia a pena. Além do mais, todos os jogadores eram amigos. As jogadas mais ríspidas que às vezes aconteciam, eram consequências naturais do jogo.


Aos vinte e poucos anos, casou-se com uma mulher não muito bonita de nome Gomercinda que já tinha um casal filhos. Foi morar com ela num terreno que possuía perto da casa dos pais. Naquele tempo, mãe solteira era vítima dos mais ferozes preconceitos. Oseias sofreu duras críticas de parentes e amigos, pois Gomercinda era considerada imprópria para o exercício do matrimônio. Era namoradeira, fuleira. Desde a adolescência ela se assemelhava a uma égua no cio – não podia ver macho.


Havia mais uma agravante: as mulheres eram apenas objetos a serviço do homem. Elas não podiam errar, tinham que ser santas. Na doutrina do machismo, mulher não podia ter opinião, sentimentos, vontade. Oseias fez ouvidos de mercador. Ele realmente gostava da moça, era apaixonado por ela e acreditava que depois que se casassem, ela mudaria o comportamento.

Trabalhador ao extremo passou a cultivar algodão e por vários anos, levou a vida naquela atividade. Pouco tempo depois de casados, ele desconfiou que a esposa estava sendo infiel, mas não brigou. Tentou apenas convencê-la a abandonar aquelas atitudes. Em vão, pois ela não se dava ao respeito. Alguns anos depois, os dois filhos dela e mais os dois do casal já estavam crescidinhos, quando o marido começou a observar algumas atitudes estranhas no comportamento da esposa. Mas deu corda. Ficou calado, sem demonstrar ciúmes, esperando que ela mudasse.


Em dia de festa de São João na casa de um vizinho, Oseias teve a maior decepção da vida. A patroa sumiu por algum tempo, deixando as crianças desacompanhadas. Com uma lanterna forte, mas desligada na mão, ele entrou no bananal que havia ao lado da casa, acendeu a luz e deu o flagrante nela junto com o compadre que considerava o melhor amigo. Os dois quase morreram de susto.


Calmamente, ele pediu ao compadre que se afastasse de sua mulher. Depois, convidou-a para irem embora. Ela se recusou, dizendo que não queria mais viver com ele. Considerava-se uma mulher bonita e queria conhecer outros mundos, outros homens, coisas mais interessantes que aquela vidinha de caipira que levava. Oseias implorou à amada para desistir daquela ideia, mas nada adiantou. Ela estava irredutível.


Venderam o terreno, dividiram o dinheiro e o gadinho que possuíam. Cada um seguiu seu caminho. Ao ver-se livre dos compromissos de casamento e de família, a mulher caiu na gandaia. Como ela própria dizia, foi conhecer o mundo, esquecendo-se que era mãe e esposa. A partir da separação agiu como uma messalina devassa. Entregou-se publicamente à esbórnia e à prostituição pura e simples. Ele comprou um terreno menor, foi trabalhar e cuidar dos filhos dele e mais os dois dela que Oseias considerava seus. Sofria e chorava pelo desprezo dela, mas não falou mais no assunto.


Foram tempos difíceis. Além da tristeza e da dor provocadas pelo desprezo da mulher amada, Oseias teve que cuidar sozinho das quatro crianças, acompanhando seus estudos, trabalhos e brincadeiras. Tudo isso sem falar dos trabalhos na roça e do trato com o gado. Contratar alguém para ajudar naqueles serviços era impossível, pois a renda não permitia. Ele, porém, não baixava a cabeça, nem reclamava.


As críticas e gozações pela tolerância exagerada não diminuíam. Recebeu apelidos de chifrudo, corno manso, conformado. Nas peladas de fim-de-semana ouvia críticas e comentários maldosos. Quando disputava lance com outro jogador, lá no meio da torcida, algum gaiato sempre gritava: “mete o chifre nele, Oseias! Para que servem esses chifres que você tem”? Nem assim, ele brigava.


Um ano depois a mulher voltou. Parecia ter envelhecido mais de dez anos. Doente, maltrapilha, parecendo uma mendiga sem um tostão. Trazendo cicatrizes e hematomas, ela implorou chorando, para que ele a aceitasse novamente. Ao vê-la naquela situação, Oseias a abraçou chorando e concedeu o perdão. Outra vez, foi duramente criticado por aquele gesto.


Os três meninos e a menina fizeram coro à voz do pai, demonstrando grande alegria pelo retorno da mãe. Gomercinda chorou ao receber o carinho da família, coisa da qual já tinha se desacostumado. Ela agradeceu a Deus pela acolhida e corajosamente, revelou ao marido, que a tal “vida fácil” é um inferno para todas as mulheres que nela se aventuram. O prostíbulo é um antro de maldades, falsidades, desrespeito e rivalidades sem paralelo na vida do ser humano. Lá não existe amor.


Oseias viveu algum tempo feliz ao lado da esposa. Tinha esperança que dali em diante, ia ter uma família de verdade, com a mulher que amava ajudando a cuidar dos filhos. Em poucas semanas ela estava saudável, recuperada física e psicologicamente. A alegria dele e dos filhos, porém, durou pouco.


Mais um ou dois meses e a destrambelhada abandonou de novo a família e voltou para a zona. Era lá que se sentia à vontade. Não gostava da rotina cansativa de dona de casa, mãe de família, esposa. Detestava ter que se levantar cedo para cuidar da casa, das crianças, do marido. Sentia-se muito mais à vontade no cabaré, onde podia dormir bêbada todas as noites e só sair da cama ao meio dia, morrendo de ressaca.


O marido chorou. A diferença é que daquela vez, não chorou sozinho. Os três filhos e principalmente a filha sentiram-se desprezados, humilhados, jogados para escanteio, justamente por uma das pessoas que mais amavam. Como pai zeloso e compreensivo, ele teve que superar a própria dor do abandono e ainda inventar desculpas em defesa da mulher, para mitigar o sofrimento dos filhos.


Algumas semanas depois, Gomercinda envolveu-se numa briga violenta com outras duas mulheres e levou a pior. Teve um olho furado, o rosto desfigurado, as mãos e partes do corpo cortados por navalhas. Ficou irreconhecível. Levada às pressas para o hospital, foi socorrida a tempo e salvou-se por milagre, mas as sequelas e cicatrizes, ela levou para o resto da vida.

Ao tomar conhecimento do ocorrido, Oseias e os filhos ficaram desesperados. Ele foi imediatamente para o hospital a fim de acompanhar os acontecimentos e tomar as providências necessárias. Ao verificar que a mulher tinha recebido o tratamento adequado, ele voltou para o sítio para tranquilizar as crianças. Depois, vendeu metade do gadinho que possuía, pagou todas as despesas e levou novamente a mulher para casa.


Cega e com o rosto cheio de cicatrizes, Gomercinda perdeu a exuberância e transformou-se numa mulher feia, de aspecto desagradável. Estava decretado o fim da carreira de prostituta. Em silêncio, Oseias agradeceu a Deus, pois sabia que nenhum outro homem ia mais se interessar por sua amada Gomercinda e assim poderia viver em paz com ela. O amor faz coisas estranhas...


(NOTA DO AUTOR: O que estamos relatando, baseia-se em fatos reais. Os leitores estudiosos da Bíblia, entretanto já devem ter notado que o texto se assemelha à história de Oseias e Gomer, a esposa infiel. Segundo consta da Bíblia, ali se retrata a infidelidade do povo de Israel para com Deus e o perdão concedido repetidas vezes. Oseias, que significa Salvador perdoa várias vezes a sua esposa, mas ela sempre incorre em novo pecado. Os personagens da nossa história agem de maneira parecida com os da Bíblia. Os nomes Gomercinda e Oseias foram colocados de propósito, para lembrar o texto bíblico).

As semelhanças param por aqui, mas a história real prossegue. Chegou o ano de 1975. Oseias fez um financiamento junto ao Banco do Brasil e aumentou a área cultivada. Com mais recursos disponíveis ele plantou 20 hectares de algodão e começou a vislumbrar melhores perspectivas de vida. Mas dizem que pobre, quando acha um ovo, é goro. Em 1975 ocorreu a segunda pior seca do século XX na região, perdendo apenas para a de 1939.


A colheita ficou em menos de 20% do previsto e não havia nenhum seguro que reembolsasse os prejuízos. Ele vendeu o resto do gado, entregou o dinheiro ao Banco e ainda ficou devendo parte da dívida para o outro ano. Fez novo financiamento e foi à luta. Precisava trabalhar dobrado para recuperar o que havia perdido na safra anterior.


As chuvas no tempo certo ajudaram, as sementes germinaram bem e a lavoura se desenvolveu de maneira maravilhosa. No mês de março com o algodoal formado e com carga excelente, Oseias fazia planos para o futuro. A primeira preocupação era com a dívida do financiamento. Depois de quitá-la, ele ia repor parte do gado que vendeu no ano anterior, reformar a casa e melhorar as condições de vida da família.

Mas quando os pés de algodão soltavam os primeiros capuchos, e prometiam uma safra espetacular, aconteceu um desastre que ninguém poderia prever nem evitar. Também nunca tinha sido registrado na região, pelo menos naquelas proporções. Uma chuva de granizo devastadora arrasou tudo num raio de vários quilômetros. A lavoura de Oseias foi a mais atingida, porque estava exatamente no centro geográfico da catástrofe. Por dois dias, foi possível avistar os montes de gelo espalhados pela roça. Perda total, não sobrou nada.


As matas ao redor ficaram totalmente desfolhadas. Os galhos mais fracos das árvores foram arrancados dos troncos e os mais fortes foram descascados e mutilados. Passarinhos e pequenos animais morreram aos milhares. Muitas casas tiveram os telhados destruídos. As pessoas buscaram abrigo debaixo das mesas. Com seu jeito simplório, muitos moradores acreditaram que era o fim do mundo.


Oseias foi ao Banco do Brasil que financiou a lavoura e relatou o acontecido. A decisão da instituição bancária foi cruel. Exigiu o pagamento imediato do principal mais os juros. Oseias, em desespero, implorou ao gerente que prorrogasse e parcelasse a dívida, pois não poderia pagá-la em curto prazo. Argumentou que tinha mulher e quatro crianças para cuidar e não sabia fazer outra coisa além de trabalhar na roça.


Tempo perdido. O gerente foi irredutível. Disse que o Banco não era instituição de caridade, nem tinha capacidade para controlar chuvas, vento, fogo, Sol. Disse que aquelas catástrofes sempre fizeram parte dos riscos que os produtores são obrigados a assumir quando assinam um contrato. Num lance desesperado, Oseias levou a mulher e as crianças na tentativa de sensibilizar o gerente, o fiscal e os funcionários do Banco. Como ia sustentar a família sem um pedacinho de terra para trabalhar?


- Isso não é problema meu não, amigo! – Foi a resposta seca do gerente.


Ele ouviu e ficou parado, olhando para o homem. Os olhos se encheram de lágrimas. A mulher avançou para agredir o gerente, mas Oseias a conteve e não deixou. Saíram em silêncio, levando as quatro crianças, que não compreendiam o que estava acontecendo.


Em uma semana, o fiscal do Banco chegou acompanhado de outros dois homens para fazer a avaliação da terra que seria levada a leilão. Mais uma vez, Oseias implorou que não lhe tomassem aquele pedacinho de chão. Precisava apenas de um tempo, para trabalhar e voltar a produzir e assim, ter condições de pagar a dívida. O fiscal disse que não poderia fazer nada, estava apenas cumprindo ordens.


A avaliação estipulou o preço em menos da metade do valor de mercado. O Banco do Brasil estava interessado apenas em recuperar o que havia emprestado. Sem recursos, nem orientação, nem capacidade para lutar contra uma instituição tão poderosa, Oseias viu seu terreninho de cinquenta hectares ser leiloado por preço vil, apenas para cobrir os interesses bancários. A burocracia do Estado acabava de expulsar mais um pequeno agricultor junto com a família do seu trabalho no campo.


Poucos dias depois, ele alugou um barraco de sala, quarto e cozinha numa ponta de rua na cidade e levou mulher e filhos. Saiu da roça chorando, mas sem brigas nem reclamações. Foi uma dificuldade enorme para todos, pois passaram a dormir amontoados em um quartinho de poucos metros quadrados. A mulher brigava, os filhos brigavam, mas Oseias nada dizia. A única coisa que fazia era encher os olhos de lágrimas em silêncio. Trabalho estava difícil, mudou-se para a Jaíba. A RURALMINAS torrava bilhões naquela área.


Conseguiu serviço de roçada de manga numa fazenda próxima. Pegava no batente ao amanhecer e só parava depois do pôr do Sol. Começou a ganhar um dinheirinho e passou a pegar serviços de empreita. Contratou outras pessoas para trabalharem com ele e a coisa foi evoluindo. Em poucos meses, transformou-se em empreiteiro rural, mais conhecido como “gato”.


Depois de perder tudo o que tinha por catástrofes climáticas e por intolerância dos funcionários do Banco do Brasil, sem nunca brigar nem reclamar, Oseias começou a encontrar uma saída para seus problemas. Trabalhava como um louco, de domingo a domingo, mas já vislumbrava algumas possibilidades de oferecer melhores condições à família.


Pela honestidade e dedicação ao trabalho, ele passou a ser procurado por gerentes e proprietários de fazendas para prestar vários tipos de serviços. Trabalhava com roçada de manga, derrubada de mata, tiragem de madeira, construção e reforma de cercas e currais, cultivos e colheitas de roças, enfim, não ficava parado. Pegava empreitadas e as sublocava, mas exigia dos outros que a jornada tinha que ser igual à dele.


A situação começou a mudar devagarzinho e ele pôde alugar uma casinha melhor. Os filhos estavam na escola, a mulher, por motivos óbvios abandonou a vida mundana e passou a lavar roupas no rio para ajudar. Todos ainda choravam de saudades da roça, mas fazer o quê? Tinham que se acostumar. Alguns meses depois, surgiu uma oportunidade real para ganhar dinheiro.


Na mesma época em que o banco tomou o terreninho dele, o governo de Minas, comandado por Francelino Pereira, doou ao grupo OMETTO de São Paulo uma área de quarenta e cinco mil hectares. Isso mesmo, quarenta e cinco mil hectares de terras planas de excelente qualidade, entre os povoados de Jaíba e Mocambinho. Exatamente novecentas vezes maior que o sítio de Oseias que o Banco do Brasil tomou.


A gleba era coberta por floresta nativa com grande potencial para extração de madeiras nobres. Além de doar as terras, o governo estadual e o federal liberaram vultosos recursos com juros subsidiados para a empresa se instalar.


Havia ainda a SUDENE, que liberava verdadeiras fortunas a fundo perdido. O propósito era promover o desenvolvimento da região nordeste do país. Os recursos da autarquia federal para empresas eram tantos que praticamente todas elas fraudavam os projetos e levavam o dinheiro para investir em São Paulo ou engordar contas bancárias no exterior.


É preciso registrar aqui um descalabro que muita gente não conhece. O apoio da SUDENE aos grandes grupos era a coisa mais absurda que alguém possa imaginar. Primeiro, a empresa comprava os terrenos de várias dezenas de pequenos produtores e formava uma grande área. Para cada cruzeiro que a empresa investia a SUDENE emprestava dois, a fundo perdido. No caso da OMETTO, não houve compra nenhuma. Todo o terreno foi doado pelo estado em terras devolutas.


Quanto mais desperdiçassem dinheiro com nota fiscal, maior a vantagem. Os proprietários compravam material de construção sem pesquisar preços em Belo Horizonte. Quanto mais caro, melhor. Pagavam os próprios caminhões para transportar. Todos tinham suas próprias empresas de transporte. As cercas eram feitas com madeiras da própria fazenda, mas eles arranjavam notas fiscais como se estivessem comprando e comprando caro. Se a nota fiscal fosse de dez mil, eles recebiam vinte mil da SUDENE, a fundo perdido. Até quando, Brasil?


O grupo OMETTO de posse daquela vastidão de terras tinha projetos ambiciosos: transformar dez mil hectares de mata bruta em pastagens todos os anos. O trabalho era monumental e seria executado em etapas. Primeiro seria necessário cortar e retirar toda a madeira nobre. Em segundo vinha o correntão que arregaçava tudo. Em terceiro, fazia-se o aproveitamento da lenha para carvão. Em quarto era preciso queimar toda a área. Em quinto, vinha a distribuição das sementes de capim, feita por avião. Após a germinação, ainda era preciso aplicar herbicidas e inseticidas.


O correntão é um capítulo à parte. Atualmente o seu uso está rigorosamente proibido por lei. Ele é um dos mais devastadores instrumentos de destruição da natureza que a inteligência humana já produziu. O funcionamento é simples. Um correntão de cinquenta metros pesa aproximadamente oito a dez toneladas.


As duas pontas são acopladas a dois tratores de esteira modelo D8 de quase quarenta toneladas e mais de trezentos HP de potência, cada um. Eles penetram na mata em linhas retas paralelas a uma distância de quarenta metros um do outro. Viajam à velocidade de um ou dois quilômetros por hora pela mata a dentro. A destruição que fazem é o preço cobrado pelo progresso a qualquer custo. Milhares de pássaros e seus filhotes, abelhas de várias espécies, pequenos animais da floresta morrem instantaneamente esmagados pelo correntão ou pela destruição total do seu habitat. Isso tudo, sem contar a quantidade de árvores e ervas ainda desconhecidas que são levadas à extinção.


O desmatamento de florestas feito por correntão era tão comum que até a RURALMINAS, empresa de desenvolvimento do governo de Minas o usou por muito tempo na abertura de grandes extensões de matas na região de Jaíba. É importante lembrar também, que o correntão foi adotado em substituição a um método de desmatamento muito mais nefasto e danoso ao meio ambiente.


O uso do correntão, com todos os danos que causava, pelo menos ainda permitia que se aproveitassem a madeira e a lenha da área, além de dar chance de fuga aos animais de grande e médio porte. Com o outro método, nem isso era possível, a devastação era total, o resultado era macabro. Foi o método usado pela Agronorte em uma das suas fazendas a poucos quilômetros do Gado Bravo, já no município de Espinosa.


O trabalho começava em janeiro, quando a floresta estava verde e florida em toda a sua exuberância. Com uso de aviões, jogavam-se herbicidas e desfolhantes fortes sobre a área. Em poucas horas a folhagem das árvores começava a murchar. A floresta morria por inteiro. Em alguns dias não havia uma folha na árvore, secava tudo. Os galhos ficavam esturricados, as cascas das árvores caíam. No calor de setembro, com a mata completamente seca, fazia-se a queimada.


Toda a madeira era destruída. Animais que porventura estivessem na área eram queimados vivos. Não sobrava nada, nada. No início das chuvas, os aviões voltavam jogando sementes de capim. Milhares de hectares de florestas foram destruídos dessa maneira no norte de Minas entre os anos 70 e 80. Sob a bandeira do progresso a qualquer custo, escondia-se a ganância dos inescrupulosos. As empresas campeãs em destruição foram a AGRONORTE, subsidiária da CISA VEÍCULOS, de Belo Horizonte e o GRUPO OMETTO, de São Paulo. Mas há muitas outras.


Voltando à nossa história surgiu uma boa oportunidade para Oseias quando foi convidado por um dos encarregados do grupo OMETTO para ajudar a fazer o aproveitamento da madeira na área que seria desmatada. Foi apresentado ao gerente geral, um engenheiro agrônomo de nome Waldemar que comandava um exército de mais de quatrocentos homens, entre construtores de cercas, tratoristas, pedreiros, tiradores de madeira e de lenha, carvoeiros, entre outros.


Homem educado, calmo e bonachão, Dr. Waldemar tinha mais de setenta anos. Apesar da aparência tranquila, fumava dois maços de cigarros por dia e não se preocupava com a saúde. A conversa foi cortês e produtiva.


Com vasta experiência no trato com as pessoas, logo nas primeiras conversas com Oseias, o Dr. Waldemar percebeu que estava negociando com gente honesta e confiável. Em pouco tempo, chegaram a acordo e ele passou ao novo empreiteiro a responsabilidade de contratar pessoal para fazer a retirada de toda a madeira útil em dez mil hectares de mata. A empresa daria todo o suporte e Oseias ficaria encarregado de gerenciar a retirada da madeira.


Ao perceber que ali estava a grande oportunidade que a vida até aquele momento lhe negara, Oseias pegou pesado. O contrato com a empresa era de pagamento por peça de madeira entregue. Os preços variavam, logicamente. Postes de luz, dormente de dois metros e de dois e oitenta para a estrada de ferro, mourões de cancelas, palanques e lasquinhas para cercas, madeiras para serraria de construção. Tinha que aproveitar tudo.


Contratou 40 homens entre machadeiros e operadores de motosserra. O trabalho deles era em forma de empreita, portanto, ganhavam por produção. Muitos ficaram cinco meses na mata, trabalhando sete dias por semana. Ao fim de cada dia, eles entregavam a madeira e pegavam o recibo. Para todos eles, a oportunidade de ganhar dinheiro era excelente, por isso, ninguém queria parar.


Além dos madeireiros, Oseias contratou mais de vinte trabalhadores para serviços diversos. Empraçar madeira com carroças de burros, carros de bois ou com tratores cedidos pela empresa, fazer estradas e praças para se juntar a madeira, contratou dois auxiliares de fiscalização e recebimento de madeira, dois cozinheiros, enfim o serviço não parava nunca. O salário era bom, mas a jornada também era de sete dias por semana e superior a 12 horas por dia.


A empresa pagava muito bem, mas era exigente com a qualidade dos produtos. Oseias, por sua vez, pagava bem, e era mais exigente, ainda. Com poucos dias os trabalhadores aprenderam como devia ser cada peça de madeira que produziam e o serviço se desenvolveu de maneira espetacular. A produção superou as expectativas. O esforço dos trabalhadores era tanto que alguns chegaram a tirar mais de cinco salários mínimos por mês, coisa que nunca tinham imaginado.


No início dos trabalhos, Oseias reuniu toda a sua equipe com o Dr. Waldemar para acertar com ele algumas reivindicações. Todos queriam trabalhar até a chegada das chuvas e não perder tempo. Queriam receber semanalmente apenas o dinheiro da feira e deixar o acerto final para quando terminasse a temporada. Era uma poupança que queriam fazer. O gerente concordou e eles continuaram no batente com vontade.


Ao fim do primeiro mês, Oseias ficou admirado com tanta produção. Ele recebia as madeiras dos lavradores, passava o recibo para cada um e ficava responsável pelo pagamento. Depois entregava tudo para a empresa e deixava o acerto para o fim, como combinaram. Visitava a família apenas uma vez por mês, mas não perdia tempo. Ia e voltava no mesmo dia.


Quando a mulher e os filhos reclamavam de que ele os havia abandonado, Oseias argumentava que não podia parar porque ao fim daquela empreitada ia ter condições de comprar uma casa para eles. Todos concordavam e ainda ficavam torcendo para que o esforço dele fosse recompensado.


Em nova reunião com o doutor Waldemar, Oseias e os empreiteiros fizeram alteração no contrato verbal que tinham acertado anteriormente. Para facilitar as coisas, a empresa pagaria a eles semanalmente as madeiras de serraria, de curral e de cercas, deixando todos os postes de luz e dormentes para o acerto final. Esses dois tipos de madeira eram os mais caros. Por isso representavam maior volume de dinheiro.


Ao fim de três meses e meio de trabalho, Oseias e sua equipe já tinham entregue à empresa mais de vinte mil dormentes para a estrada de ferro e três mil postes de luz. Além disso, dezenas de caminhões de madeiras para serraria e outras dezenas de caminhões de mourões de curral, palanques e lasquinhas para cerca.

Tudo combinado e já com boa grana nos bolsos, os trabalhadores voltaram ao trabalho com mais disposição ainda. Faltava menos de dois meses para o início das chuvas e nenhum deles queria perder tempo, pois não sabiam quando poderiam arranjar uma oportunidade tão boa para ganhar dinheiro.


Algumas semanas antes do encerramento dos trabalhos, o doutor Waldemar foi a São Paulo para uma reunião com os altos executivos da empresa. A viagem era feita em avião particular até Montes Claros e de lá em diante, em avião de carreira. Chegou à capital paulista pouco depois das oito horas da noite e foi para casa. A reunião seria no outro dia pela manhã. Dr. Waldemar, entretanto, não pôde ir. Durante a noite, antes de dormir, ele sofreu um AVC violento. Não morreu porque foi socorrido a tempo. Além disso, estava perto de bons hospitais, mas ficou com sequelas irreversíveis. Perdeu os movimentos, ficou totalmente mudo e nunca mais saiu da cama.


Passados o choque, a comoção e a tristeza, chegou um novo gerente para a fazenda. Chamava-se Cosme e fazia questão de ser chamado de “doutor”. Era novato e queria mostrar serviço. Não perdia oportunidade para dizer que era lutador de jiu-jitsu. Agitado, autoritário, fala fina, nervoso, era o oposto do antecessor. Dr. Waldemar tinha autoridade natural, sem ser autoritário. Falava baixo e pausado, não gritava com ninguém. Por isso era respeitado e querido por todos.


O novato já chegou brigando com todo mundo. Reclamava que o antecessor era frouxo, incompetente e que todo o trabalho dele estava errado. Precisava corrigir os erros e dar novos rumos à administração da empresa. Fazia todo aquele alarde, para mostrar aos chefes que tinha mais competência que o outro. Mal, mal o conheceram e todos os funcionários de empresa passaram a detestá-lo.


Os trabalhadores pressionaram Oseias para marcar com o Dr. Cosme uma reunião na qual queriam falar sobre o acordo que fizeram com o Dr. Waldemar. Mas o homem disse que só poderia atendê-los na próxima semana. Era um legítimo burocrata em tudo o que fazia ou falava.


Oseias e seus sessenta e tantos trabalhadores ficaram preocupados, pois o novo chefe era irascível, rabugento, encrenqueiro. Era um puxa saco dos diretores da empresa. Fazia tudo para mostrar serviços, sem se importar se isso prejudicava alguém. Tinha menos da metade da idade do antecessor, mas era egocêntrico e se achava o homem mais inteligente do mundo.


A turma parou o trabalho para forçar uma reunião com ele. O resultado foi o pior possível. O doutor Cosme mandou suspender toda a tiragem de madeira e determinou que o encarregado voltasse em quinze dias para uma reunião com ele. Avisou que não adiantaria virem em caravana, pois quem mandava na fazenda era ele e que só atenderia uma pessoa, apenas o encarregado, que no caso era Oseias.


Os homens entregaram as últimas peças de madeira que tiraram. Foram embora preocupados e aborrecidos. “O que custava para aquele muquirana falar com a gente? Será que ele se achava o dono do mundo”? Alguns pensaram em ficar e forçar a barra, fazer logo o acerto, mas Oseias pediu calma. Disse que o doutor Cosme tinha razão. Queria examinar as contas em primeiro lugar. Depois, com certeza ele ia fazer os pagamentos e contratar todos novamente, pois estava tudo certinho.


Voltaram para casa deixando sem acerto trinta mil dormentes, mais de quatro mil postes de luz, além de todas as madeiras tiradas nas últimas semanas. Alguns dos homens falaram coisas desagradáveis com Oseias. Disseram que ele foi covarde em não peitar o homem. Ele apenas pedia paciência. Garantia que as coisas seriam resolvidas sem brigas, sem confusões.


Na medida em que os dias passavam, crescia a desconfiança da maioria quanto ao comportamento do Dr. Cosme. A pressão sobre Oseias aumentava. Quase setenta homens buzinando na orelha dele o tempo todo, falando do risco de perderem tudo. Afinal, eles tinham trabalhado quase cinco meses, de domingo a domingo, do amanhecer ao anoitecer. Durante todo aquele tempo, receberam apenas o necessário para fazer a feira. Deixaram o acerto para o fim como poupança, porque todos tinham planos de como aplicar aquele dinheiro.


Vislumbravam ali, o início de uma vida melhor. Por isso, começaram a exigir que Oseias fosse logo dar uma prensa no Dr. Cosme para cobrar o que a empresa lhes devia. Mas ele não concordava. Embora fosse o maior credor, continuava pedindo calma. O que ele tinha a receber era suficiente para comprar uma casa e ainda sobrar um bom dinheiro. Porém, já tinha combinado com o homem que em quinze dias ele voltaria para fazer o acerto. Uma atitude precipitada poderia atrapalhar tudo.


O clima entre ele e os trabalhadores piorava a cada dia. Alguns o chamavam de frouxo, covarde e que o gerente, com certeza ia passar a perna nele. Ainda assim, ele continuava a dizer que a violência não é a melhor maneira de se resolverem as coisas. Com calma, tudo se arranjaria. Aquela conversa de bons modos e respeito já estava irritando a todos.

No dia combinado para o acerto, ele pegou a pastinha com todas as notas das madeiras entregues e comprovantes dos pagamentos que havia recebido e foi para a fazenda. Cinco léguas numa bicicletinha velha. O escritório onde trabalhava o Dr. Cosme havia sido projetado e construído por Dr. Waldemar. Era um conjunto de construções de alvenaria, totalmente cercados pela mata alta, à margem de uma estrada vicinal. Ficava a dez quilômetros de onde estava sendo construído um palacete de alto luxo que seria a nova sede da fazenda. Era palacete de alto luxo porque quem pagava tudo em dobro era a SUDENE.


Naquele local, ao lado do escritório, funcionavam almoxarifado, casa de rádio, refeitório, dormitório de peões, oficina, garagem espaçosa. Logo depois da oficina, havia uma casa onde morava a família do guarda. Bem mais ao fundo ficava a casa de força, onde dois conjuntos geradores movidos a diesel funcionavam vinte e quatro horas por dia. Pela manhã desligavam um e ligavam o outro. O conjunto de prédios ficava em uma clareira de dez mil metros quadrados, totalmente cercada pela floresta.

Depois de pedalar cinco léguas na estrada poeirenta, Oseias chegou ao escritório, cansado. Ao perguntar pelo Dr. Cosme, foi informado que o homem viajara para São Paulo e ninguém sabia quando ele ia voltar. Perguntou à encarregada do escritório se já havia alguma solução para o pagamento dos trabalhadores ou se o gerente deixou algum recado para ele. A resposta foi negativa. Ninguém sabia de nada.


Voltou preocupado. Como ia explicar aquela situação para os homens? Com certeza, todos iam duvidar da palavra dele. Mas a única solução era contar a verdade. Quando revelou o acontecido, começou o zum zum zum. Ninguém acreditava no que ele estava falando. Alguns começaram a comentar que Oseias devia ter recebido o dinheiro e estava querendo dar o calote neles. “Era um vendido”.


Dinheiro pouco gera desavença. Muito, então, nem é bom falar. No outro dia, alguns homens foram à fazenda em segredo para não alertar Oseias e começaram a fazer juras: “se aquele safado tiver recebido o pagamento e estiver querendo passar a perna na gente, nós vamos quebrar o chifre dele no cacete”. Ao chegarem à fazenda, porém, confirmaram que ele disse a verdade.


Na outra semana, Oseias pegou novamente a bicicletinha e voltou lá. Depois de mais de duas horas de espera, foi recebido pelo homem bravo. Ficou aliviado, pensando: “até que enfim, eu vou receber esse dinheiro enroscado”. Enroscado de verdade, ele ficou depois da conversa com o Dr. Cosme.


- Olha, seo Oseias, o Senhor deu um grande prejuízo para a fazenda! A madeira que o senhor tirou foi toda condenada. A Estrada de Ferro rejeitou todos os dormentes e a empresa de eletrificação não quis receber nem um dos postes que o senhor nos entregou. Portanto, o pagamento das últimas semanas vai ficar retido para compensar parte dos prejuízos. O senhor é que está devendo muito para a fazenda por causa do estrago que fez na madeira.


Para Oseias o mundo desabou, a terra fugiu aos pés. Era impossível acreditar no que estava ouvindo. Gaguejou, tentou buscar palavras, entender o que estava acontecendo. Doutor Cosme terminou de falar, levantou-se, pegou uma pasta e foi saindo, sem sequer se despedir.

- Mas doutor Cosme, o doutor Waldemar sempre me disse que a madeira que nós entregamos era muito boa e que não dava refugo nenhum.

- Aquele velho burro não sabia de coisa nenhuma, não! Só fez trapalhada! Por isso que eu estou aqui! Vim consertar as besteiras que ele fez! O assunto está encerrado.


Lá fora o motorista já o esperava com o motor da camionete ligado.

Oseias ficou zonzo, grogue. Não entendia nada de nada. Colocou a bicicleta na estrada e saiu pedalando parecendo ébrio, tentando encontrar uma luz. Como é que ele ia dar aquela notícia aos homens? Eles nunca iam acreditar. Alguns já falavam abertamente que ele estava dando o calote, roubando. Com aquela notícia, a coisa ia azedar de uma vez. Iam querer matá-lo.


Não tinha saída, não havia como fugir à realidade. A única solução era encarar os setenta homens de frente e dizer a verdade. É evidente que quando alguns ouvissem aquela notícia, iam partir para a briga, o pau ia quebrar. De fato, quando revelou o que estava acontecendo, o clima de revolta se instalou. Todos queriam brigar.


Porém mais uma vez ele pediu calma. Muitos já estavam de saco cheio com aquela conversa de que era melhor arrumar as coisas sem brigas, na paz. A paciência de Oseias estava irritando a todos, mas não havia saída. Alguns já o tinham chamado de frouxo, covarde, cagão, que não reagia diante da intransigência e arrogância do doutor Cosme. De madrugada, depois de várias horas sem dormir, ele teve uma ideia e a colocou em prática logo pela manhã.


O homem disse que tanto a administração da estrada de ferro, quanto a da empresa de energia se recusaram a receber as madeiras. Ali estava a solução dos problemas. Ele e os setenta companheiros receberiam parte dela como pagamento. Venderiam os dormentes para serrarias. Os postes de luz, eles cortariam e fariam palanques de cercas, de currais, ou mourões de cancelas. Compradores para aqueles tipos de madeira não faltavam.

Quando procurou a gerência da estrada de ferro, veio a primeira surpresa. O encarregado disse que em toda madeira que a fazenda entregou, não houve refugo nenhum. Pelo contrário, era de excelente qualidade. Com a companhia de energia a mesma informação. Houve refugo de apenas dois postes que quebraram na hora da descarga. O resto era tudo de primeira. Aí a coisa se complicou. A cabeça de Oseias ficou a mil por hora. Não disse nada aos trabalhadores para não agitar ainda mais as coisas. Resolveu agir sozinho, pois a presença de mais gente podia atrapalhar.


No dia seguinte, pegou a bicicleta mais uma vez e rumou para a fazenda. Chegando lá, pediu à secretária uma audiência com o gerente. Dez minutos depois ela anunciou que o homem estava muito ocupado e não poderia recebê-lo. Oseias mandou dizer que não ia embora enquanto não falasse com ele. Ficou esperando a resposta. Alguns minutos depois três homens entraram no escritório. Um deles, com revólver na cintura, bem à vista. A secretária veio novamente e o chamou. O doutor Cosme concordou em falar com ele, mas apenas durante alguns minutos.


Levado à sala, foi recebido com maus bofes. Cercado pelos três seguranças o chefe já foi soltando os cachorros:

- O senhor deve pensar que eu não tenho o que fazer ou que tenho cara de trouxa, não é, seo Oseias? O senhor já recebeu tudo o que a fazenda lhe devia e eu não tenho tempo a perder. Se o senhor veio pagar o prejuízo que deu à fazenda, estou pronto para receber. Do contrário, diga logo o que tem a dizer e vê se me deixa em paz!


Com voz baixa e bem pausada, ele respondeu:

- Calma, doutor, não precisa brigar. Eu vim em missão de paz, até porque eu não sou homem de encrenca. Nunca briguei com ninguém. Onde há dúvida ou erro, a gente resolve conversando.


A seguir, relatou o que veio fazer. Falou da situação difícil que estava vivendo junto aos outros trabalhadores, que cobravam dele por toda a madeira entregue. Revelou que esteve com as administrações das duas empresas, tanto a da estrada de ferro quanto a de energia elétrica, para saber onde estavam as madeiras refugadas. A intenção era voltar à fazenda e pedir para que o pagamento fosse feito com as madeiras que não foram aceitas.


Os dormentes poderiam ser vendidos para serrarias. Os postes de luz refugados seriam cortados e vendidos como palanques de cercas e assim os problemas se resolveriam sem maiores dificuldades. Encarando o gerente nos olhos, ele falou:

- Mas quando eu cheguei lá, os administradores das duas empresas me falaram que toda a madeira foi aproveitada, que houve refugo apenas de dois postes de luz que quebraram na hora da descarga. Portanto, a fazenda me deve esta importância aqui, ó! Eu vim buscar o dinheiro! Eu tenho todos os recibos das madeiras que foram entregues. Aqui está o total!

Colocou sobre a mesa um papel com os números finais da madeira que foi entregue. A soma passava de oitocentos salários mínimos. O gerente empalideceu. Furioso, ele abriu a gaveta, pegou um revólver e uma pistola e os colocou sobre a mesa. Tremendo, ainda disse:

- O senhor se atreve a duvidar da minha palavra, e ainda quer me extorquir, seu Oseias? Eu não sou otário, não! Eu tenho curso superior, com mestrado e doutorado! Eu sou doutor! E o senhor? O que é? Quem é? O senhor não sabe nem fazer um ó! Eu falei que a madeira foi rejeitada porque foi mesmo! Se o senhor dúvida, pode ir à delegacia e registrar queixa! A minha palavra de doutor vale muito mais do que a de um analfabeto como o senhor! Agora desapareça daqui! Suma da minha frente! Se voltar aqui mais uma vez, vou mandá-lo direto para a cadeia!


Oseias não respondeu nada. Balançou a cabeça como a dizer que estava entendendo, saiu sem se despedir. Os homens que fizeram a segurança do Dr. Cosme o acompanharam até a cancela do pátio sem dizer uma palavra. Ele percebeu nos olhares, que os funcionários estavam apenas cumprindo ordens. Notou o constrangimento de todos, pois eles sabiam mais do que ninguém, que o Dr. Cosme estava cometendo uma enorme injustiça apenas para agradar aos patrões. Ele estava roubando do pequeno para dar ao grande, tomando do pobre para dar ao rico.


A situação chegou ao ponto de não ter mais retorno. Era tudo ou nada. Oseias sentiu-se como Davi frente a Golias. Ele nunca teve intenção de brigar com ninguém. Sempre se esquivava e fugia de qualquer confronto. Muitas vezes foi chamado de medroso, covarde, galinha, cagão. Se fosse somente pela parte do pagamento dele, Oseias teria deixado para lá. Já estava mesmo acostumado a levar bordoadas, sofrer prejuízos de todas as maneiras. Ia ser só mais um tombo. Não tinha brigado em nenhuma das várias vezes em que levou chifres, nem das provocações que sofreu. Fugiu de todas as brigas das partidas de futebol desde a juventude. Nem sequer reagiu quando os funcionários do Banco do Brasil lhe roubaram a terrinha.

Mas agora a situação era diferente. Não ia permitir que aquele gerentezinho pretensioso, metido a merda desse um tombo tão grande em setenta trabalhadores humildes, companheiros de dificuldades, tão necessitados quanto ele próprio.


Tentar, ele tentou de todas as maneiras. Fez tudo o que podia para evitar o confronto. Não queria desmoralizar ninguém, mas também não aceitava ser desmoralizado. O doutor Cosme que se responsabilizasse pelo que viesse a acontecer, porque somente ele era o culpado de tudo. Oseias sempre rezou pela paz, mas a partir daquela conversa do gerente, começou a se preparar para a guerra. Por mais que detestasse a violência, ele percebeu que muitas vezes ela é necessária. Chegou a hora de atravessar o Rubicão!


A fazenda tinha mais de quatro centenas de funcionários entre tratoristas, motoristas, ajudantes, pedreiros, construtores de cercas e de currais, apontadores, vaqueiros, carpinteiros e fiscais, entre outros. Muitos daqueles homens ganhavam dois ou três salários mínimos que eram pagos em dinheiro vivo, sempre num sábado, entre os dias 4 e 10 de cada mês. O pagamento começava a partir do meio dia e era integral porque a empresa não fornecia vales.


Oseias planejou tudo sozinho. Se comentasse alguma coisa com alguém, a informação podia vazar e a coisa ia dar errado, com certeza. Os homens que o ajudaram já estavam diminuindo o ímpeto das cobranças, pois consideravam que a conta estava perdida. Ainda estavam furiosos, pois ele continuava a dizer que era preciso ter calma, agir com prudência.


Faltava ainda uma semana para o dia do pagamento dos funcionários da empresa. Ele pensou em todas as saídas possíveis, até mesmo em desistir de tudo e ficar no prejuízo, deixando também os companheiros a ver navios. O risco era tão grande que ele podia morrer naquela empreitada, por isso não convidou ninguém para ajudar. Tinha que agir sozinho.


No início da madrugada do dia 6 de novembro, que era a data em que os funcionários da empresa receberiam seus salários, Oseias levantou-se logo depois da meia noite, pegou a bicicletinha e saiu. A mulher perguntou aonde ia e ele só respondeu que era uma viagenzinha, que voltaria logo. Pediu que ela não comentasse nada com ninguém. O período das águas tinha começado duas semanas antes e a mata exibia um verde exuberante, mas naquela noite não houve chuvas, o céu estava estrelado. Ele vestiu uma roupa escura, para que se confundisse com o verde da mata.


Às quatro e pouco da manhã, aproximou-se da fazenda. A um quilômetro de distância do escritório, escondeu a bicicleta no mato e seguiu a pé. Num saco de farinha vazio, levava a pasta com todas as anotações e uma peixeira bem afiada. Era a única arma que possuía.


De longe ouviu o barulho do motor a diesel que tocava o gerador. Em torno do escritório e dos galpões, as lâmpadas estavam acesas, tudo clarinho. Silenciosamente, ele entrou na mata para fugir da claridade e foi se esconder em uma moita a uns trinta metros da porta do escritório. Na casa do guarda, os cachorros começaram a latir. Ele ficou quietinho. Se aqueles vira-latas o descobrissem a vaca ia pro brejo. Felizmente um trator zoou lá na estrada e chamou a atenção dos bichos. Eles deram mais alguns latidos e se aquietaram. Tenso, como uma bomba prestes a explodir, Oseias esperou o dia amanhecer.


Pouco depois começou o movimento. Chegou uma camionete com vários peões. Todos foram diretamente para o refeitório. Depois, começaram a abastecer tratores e caminhões, cuidar da manutenção, lubrificar implementos. Uns saíam com máquinas para o trabalho, outros chegavam com outras máquinas. Era um entra e sai de peões apressados que parecia uma Torre de Babel.


Bem escondido, atrás de uma moita de ararique, Oseias observava todo o movimento. Às sete da manhã quase todos os peões já tinham saído para o trabalho. Os que rodaram com tratores à noite foram para o alojamento dormir. Às sete e meia, chegaram duas moças que trabalhavam no escritório, acompanhadas pelo operador do rádio, o chefe do almoxarifado e mais alguns auxiliares.


Alguns minutos depois apareceu a camionete cabina dupla do dr. Cosme. Ele transportava o malote com o dinheiro do pagamento, que chegou de avião no dia anterior. O coração de Oseias disparou. Deu um frio na barriga e o estômago não parava de se contorcer. Ainda havia tempo para desistir. A operação era extremamente perigosa, pois o gerente era bravo, lutava jiu jitsu e não se separava do revólver e da pistola. Oseias sabia que podia morrer, ou se ver obrigado a matar, coisas que o assombravam. “Ô meu Deus, me dá coragem! Ô minha Nossa Senhora, ajude para que minhas pernas parem de tremer!? Eu tô com medo de cagar na roupa”!

Ficou na corda bamba, querendo continuar e com vontade de cair fora. Na hora de desistir, porém, ele se lembrou que ali estava a única chance de comprar uma casa para a família. Lembrou-se ainda da situação difícil dos setenta trabalhadores que o ajudaram na tirada da madeira. Por fim, veio à memória a conversa desaforada e arrogante do dr. Cosme alguns dias atrás. A humilhação se transformou em coragem e ele resolveu continuar.


Oseias sabia que a porta do escritório ficava sempre trancada por dentro. No dia do pagamento o cuidado era maior. Tinha que aguardar uma oportunidade. O medo ia e voltava, o coração estava a mil. Quando estava prestes a desistir, a raiva voltou e com ela, a coragem. Naquele instante ele se repreendeu. “Porque esse medo besta, Oseias? Seja homem ao menos uma vez! Será que você vai passar a vida inteira sendo chamado covarde, chifrudo, corno manso. A hora é agora! Mostre o seu valor”!


Faltando poucos minutos para as oito, uma das secretárias saiu, trancou a porta e foi ao almoxarifado. Quando voltava, distraída, de cabeça baixa, Oseias aproximou-se rapidamente. Ao vê-lo, a mulher tomou um grande susto, pois ela presenciara a conversa áspera e ameaçadora do gerente, alguns dias atrás. Antes que conseguisse gritar, ele lhe tapou a boca com a mão e disse pausado:

- Se ficar quietinha não vai lhe acontecer nada! Pega a chave de abre a porta!

A mulher ficou tão apavorada que não conseguiu colocar a chave no buraco da fechadura. Ele pegou a chave, abriu a porta, entrou com ela, trancou a porta e tirou a chave, mas no momento em que entrava abraçado à mulher, um peão viu a cena e avisou aos outros que estavam por ali. Muitos se aproximaram correndo.


O chefe trabalhava na sala mais ao fundo. Oseias abriu a porta que separava as duas salas e correu rápido em direção à mesa dele. Quando o viu, o homem tentou abrir a gaveta para pegar uma das armas, mas não deu tempo. Levou um murrão parecido com um coice de mula bem em cima do barranco do olho. O mundo rodou, ficou completamente grogue.

A cadeira giratória de rodinhas em que estava confortavelmente agasalhado deslizou para trás e deu uma brecada. Ele se desequilibrou, virou as pernas para cima, caiu com cadeira e tudo. Bateu a cabeça no cimento e a groguice aumentou. A gaveta estava aberta, mostrando as duas armas. Oseias pegou o revólver e o bateu na mesa com tanta força que o vidro que a cobria virou mil cacos. Pegou a pistola, duas caixas de munições e guardou na pasta, mas ficou com o revólver e a peixeira afiada na mão. A coisa foi muito mais fácil do que ele imaginara.


O dr. Cosme, caído, não se mexeu. A dor da porrada que levou mais a cabeçada no cimento eram insuportáveis e ele compreendeu que estava derrotado. Por isso ficou quietinho, esperando as ordens. O medo exagerado de Oseias transforma-se em uma coragem tão grande que até a ele mesmo, surpreendeu. As duas mulheres tentaram fugir, mas não conseguiram porque a porta de fora estava trancada. Oseias falou com elas:

- Tenham calma, meninas! Não vai acontecer nada com vocês, não! O meu negócio é com este bandido aqui! Este ladrão safado! Ele tentou furtar o meu pagamento e o dos homens que suaram a camisa dia e noite, durante cinco meses junto comigo, tirando madeiras para a firma. Hoje ele me paga esse dinheiro ou então eu arranco as duas orelhas dele e levo pra mostrar aos companheiros!

- Ca calma, Seu Oseias – implorou o doutor Cosme, caído ao chão, trêmulo e chorando desesperado – o seu dinheiro está aí! Eu ia mandar levá-lo para o senhor, ia acertar tudo direitinho. Tenha compaixão, não me mate! Eu tenho filhos para criar. Eu sei que fui errado, me perdoa!?

- Então levanta do chão, senta ali naquela cadeira perto da parede e vamos conversar de homem para homem. Eu nunca tive intenção de matar ninguém, nunca briguei na minha vida. Você me levou ao desespero, por isso estou aqui! Eu vim apenas buscar o que é meu e dos meus companheiros. Mas se for preciso matar um sacana, pode ter certeza que vou te matar sem dó nem piedade!

- Calma, calma! O senhor vai receber o seu dinheiro agora!


O todo poderoso doutor Cosme chorava e tremia parecendo uma criança abandonada, com frio. Já estava se formando um hematoma no olho e na testa. Em seus trinta e tantos anos, nunca passou uma vergonha e um constrangimento tão grandes. Vários operários apareceram pelo lado de fora das janelas de vidros, curiosos porque viram parte das cenas e ouviram os gritos das mulheres.


Oseias disse a eles que não estava acontecendo nada. Ele estava apenas recebendo o pagamento que a empresa lhe devia. A um sinal dele, o doutor Cosme apareceu na janela, já com o olho roxo, inchado e gritou com eles numa bronca desnecessária, exigindo que todos voltassem imediatamente ao trabalho. Saíram todos furiosos, torcendo para que Oseias desse mais uns tapas nas orelhas daquele safado.


- Você não respeita o ser humano, não aprende como devem ser tratadas as pessoas, hein, seu casca grossa, sacana! Você se acha melhor que os outros, é? Peça desculpa a eles, agora, safado!

- Ô meus amigos, me perdoem, me desculpem. Não me levem a sério! Eu estou um pouco nervoso, só isso.

Todos saíram dando risadas e fazendo chacotas com o choro e o pedido de perdão do doutor Cosme. Ele baixou a cabeça, humilhado. Nunca imaginou que um dia pudesse ouvir tantas broncas e desaforos de um peão. Mandou que a secretária abrisse o cofre e entregasse todo o dinheiro que havia lá, mas Oseias recusou.

- Eu vim aqui para receber o que é meu e não para furtar o que é seu! O que você me deve é isso que está escrito no papel! Vou receber apenas o que é meu e dos meus companheiros! Não quero um centavo a mais!


A mulher tremia mais do que vara verde ao vento. Pegou um saco de dinheiro, contou e o entregou a Oseias. Ele estava até gostando daquela brincadeira, mas tinha pressa, porque os peões do campo poderiam voltar a qualquer momento. Além do dinheiro, colocou na sacola as duas armas e toda a munição que o homem tinha nas gavetas. Antes de sair, ainda deu um último recado.

- Eu vou levar estas duas armas como garantia. Mas elas são suas e não minhas! Pode mandar pegá-las amanhã na minha casa, mas o portador tem que levar um bilhete com a sua assinatura. Caso contrário, eu não entrego! Se mandar alguém me seguir, ou se der queixa na polícia, vai ser o seu fim, porque eu volto aqui para a gente terminar o acerto! E não adianta fugir, porque eu vou até o fim do mundo, mas te pego, cachorro!


Saiu, trancou a porta e levou a chave. Quando se afastou do alcance da vista, Oseias correu como um louco. Pegou a bicicleta e teve impressão de que ela tinha criado asas. Só faltava voar. Cobriu o percurso de volta em pouco mais da metade do tempo que gastou na ida.


Chegando à Jaíba, escondeu-se na casa de um dos trabalhadores e mandou chamar a família imediatamente, pois temia represálias da fazenda ou do Dr. Cosme. Mandou também chamar os homens um por um e disse que já estava com o dinheiro para o acerto. Quando relatou os fatos, ninguém acreditou. Todos ficaram imaginando como aquilo aconteceu. Aonde um sujeito que todos consideravam covarde, medroso, dominado pela mulher, foi buscar coragem para enfrentar o gerente bravo e seu exército de funcionários?


Nunca mais alguém se atreveu a chamá-lo de covarde, de chifrudo ou de corno. Receoso, não voltou mais à casa onde morava. Alugou um carro e fugiu com a família para Montes Claros. Contratou o dono de um caminhão para levar toda a mudança. Jaíba? Nunca mais!


A situação para o dr. Cosme ficou bem mais difícil. Logo que conseguiram rebentar a porta do escritório, ele saiu gemendo, sem dizer uma palavra. A peãozada olhava séria, mas morrendo de vontade de soltar umas boas gargalhadas. Sentia-se vingada da truculência e da grosseria com que os tratava. Ele foi para a sede da fazenda, passou a mão no galo de briga e pegou o avião para Montes Claros. Chegando lá, pegou um táxi e mandou o motorista seguir direto para o hospital. No balcão de atendimento alguém perguntou “o que foi isso”? “Foi queda de cavalo”, respondeu seco.

O funcionário achou estranho que uma queda de cavalo machucasse apenas o barranco do olho. “Queda de cavalo uma ova! Esse peão levou uma porrada no olho e agora está com vergonha de falar a verdade”! Foi mais um que riu em silêncio da testa de touro gir que o Dr. Cosme apresentava.

Ficou doente uma semana, queixando-se de dores em todo o corpo. Mas era só de mentira. Colocava gelo todos os dias no roxo da cara para sarar logo. Enquanto a mancha não sumiu completamente, ele não saiu do hospital.


Ao fim do tratamento, embarcou-se para São Paulo e nunca mais pisou em solo mineiro. Tomou ódio dos sertanejos, não gostava nem de ouvir falar em norte de Minas. Quando alguém perguntava o porquê daquela antipatia, a resposta já estava pronta:

- Deus me livre daquele povo! É tudo doido!







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